DE TORCEDOR A IRONMAN

DE TORCEDOR A IRONMAN

 

No ano passado vários amigos foram participar do Ironman Brasil que acontece todo ano em Florianópolis-SC, alguns em busca de ótimos tempos para se qualificarem para o mundial no Havaí e outros pelo desafio de nadar 3,8k, pedalar 180k e correr 42k.

Fiquei animado em acompanha-los e assistir a prova para entender melhor como era uma prova de triathlon, até então não sabia a diferença entre uma bike de estrada e uma de triathlon. Meu negócio era corrida e barro.

Voltei de Florianópolis impressionado com a energia da prova e a torcida que se forma na Av. Búzios, onde tudo acontece durante a prova, diferente das provas de montanha os atletas têm mais contato com a torcida por conta das passagens e transições. Voltei picado pelo bichinho do triathlon.

Isso tudo aconteceu em maio/15, em junho comprei uma bike road para aprender a usar a sapatilha de estrada, como pedalar uma bike de pneu fino, etc. Comecei indo com ela para o trabalho nos dias em que eu conseguia, para a estrada ainda tinha algum receio e não tinha experiência para acompanhar meus amigos. Fiquei me enganando até agosto quando fui assistir ao Ironman 70.3 de Foz de Iguaçu (meio iron para os não introduzidos) durante a prova vi muita gente sem experiência, medo de nadar em águas abertas, dificuldade em monte e desmonte na transição da bike, corrida arrastada, … No final da prova já tinha decidido que iria me inscrever para o Ironman 70.3 Miami em novembro, onde eu iria para assistir minha namorada participar, sim eu arrumei uma namorada triatleta.

Ali começava o meu projeto IRONMAN 70.3!

Logo na segunda-feira, voltei a treinar natação, esporte que não praticava há pelo menos 10 anos, fui bem direto ao professor: Preciso nadar 1900m no máximo em 1 hora até novembro. Comecei a correr atrás de uma bike de triathlon, o maior investimento neste esporte, consegui uma em São José dos Campos de um cara que tinha abandonado o esporte e se mudado para o Rio de Janeiro e a bike tinha ficado com um amigo. Quando cheguei para ver, a coitada estava toda empoeirada mas muito conservada e era VERDE. Voltei na hora certo que já tinha tudo que eu precisava, ledo engano, o triathlon é um esporte que sempre tem algo para se investir, melhorar e aos poucos vai levando uma graninha até você formar sua tralha do jeito que sonhou.

Como a corrida era meu forte, foquei na natação e na bike e comecei a fazer os meus finais de semana assim: sábado corrida de montanha, domingo pedal na rodovia.

Nesse meio tempo participei de algumas provas na distância olímpica (750m de natação/ 40k de bike / 10k de corrida) e fiz o Trirex Evolution em Brotas que me deu muita confiança na natação e no pedal, afinal lá tem muita subida tanto no pedal quanto na bike.

Com isso participei do Ironman 70.3 de Miami em novembro/15 terminando em 5:26 e aprendendo que se forçar no pedal a corrida cobra o preço. Mas voltei animado.

Muito bem até aí tudo sob controle, a história começa é agora !

Quando cheguei dessa viagem e como estava gostando da brincadeira minha namorada resolveu me dar de presente adiantado de Natal uma inscrição para o IRONMAN BRASIL 2016, nada de meio iron, mas sim um full iron para um cara que a menos de um ano só corria. Me convenceu que eu era capaz, forte, treinava direitinho e que ela estava inscrita e que seria uma forma dela ter companhia para os seus treinos, hummmmmmm…. pensei alguns dias e resolvi aceitar o “presente”.

Tudo precisou mudar, primeira coisa foi arrumar tempo, eu precisava conseguir aumentar os volumes e ao mesmo tempo manter a rotina de trabalho, passei a treinar de manhã antes de entrar no trabalho, nadar na hora do almoço, durante a noite ou pedalava ou corria e aos finais de semana madrugava aos sábados e domingos, dormir até tarde foi algo que eu esqueci por vários meses.

Com esse novo objetivo e buscando me preparar da melhor forma, procurei uma assessoria esportiva voltada para o triathlon onde eu teria mais companhia para os treinos, principalmente de ciclismo, passei a treinar a natação com o grupo de triathlon daqui de Jundiaí e com acompanhamento do treinador na piscina 3 vezes por semana. Ainda passei a fazer a musculação com personal trainer 2 vezes por semana, além de 1 treino de pilates toda semana e liberação miofascial a cada 15 dias. Nessa altura minha namorada tinha desistido dos treinos por outros motivos.

Junto com toda essa carga de treino ainda tinha o acompanhamento nutricional e o apoio da família, ponto importantíssimo para o sucesso, afinal precisei abrir mão de muitas momentos com eles.

Com esse circo todo montado, eu teria quase 5 meses para me preparar mas já tinha algumas provas/passeios programadas:

  • Uma travessia de montanha ao Pico da Bandeira ( fev) – 25k com mochila cargueira tomando todo o cuidado para não lesionar.
  • Trail Adventure Chile ( março ) – a distância programada era 90k mas precisei mudar para 25k para não atrapalhar a periodização;
  • Maratona de Boston ( abril ) – o combinado com minha treinadora era correr para 3h30 para não forçar demais e assim foi;
  • Um feriado PROMETIDO  (abril) na Ilha Bela de descanso com a namorada com direito a um pouco de  dolce far niente.

Tudo isso de certa forma atrapalhava a periodização mas eu precisava cumprir esses compromissos.

Minha rotina passou a ser acordar muito cedo, por volta de 5h da manhã e fazer um treino de pelo menos uma hora (ciclismo ou corrida), meu horário de almoço passou a ser às 11h, comia algo rapidinho e ia para a piscina do clube onde treino para nadar 1h15m, no fim do dia sempre tinha outro treino, geralmente musculação com corrida ou ciclismo. Durante a semana ainda arrumava tempo para o pilates e a liberação miofascial.

Os finais de semana se resumiam em: treino longo de ciclismo no sábado com transição de corrida, geralmente eu dirigia por volta de uma hora até Cosmópolis para pedalar na rodovia Zeferino Vaz em busca de segurança, resumindo, antes das 13h nunca estava em casa! Aos domingos fazia o longo de corrida e não tinha vontade de fazer mais nada no resto do dia.

Logo no começo percebi que minha dificuldade era a transição do ciclismo para a corrida, o corpo chegava cansado para correr mas minha treinadora disse que com o tempo eu me adaptaria, mas precisava manter uma cadência alta no ciclismo para não judiar demais das pernas, precisei tentar mudar pois sempre pedalava fazendo força (cadência baixa).

Assim fui levando, sumido dos eventos sociais, precisei deixar de treinar trailrunning com meus amigos na Serra do Japi por incompatibilidade de horários, nessa hora se a família/namorada/esposa não apoiarem as chances de você desistir são enormes.

Para me testar marquei algumas provas nesse período, para a natação fiz a Fuga das Ilhas (1500m) e o Rei e Rainha do Mar (4000m que devido ao mal tempo virou 2000m), além de alguns treinos em lago para me acostumar com a orientação/navegação. Para ver como viam os treinos me inscrevi no Triathlon Internacional de Santos e no Long Distance de Pirassununga, o primeiro na distância olímpica e o segundo na meio iron (1900m/90k/21k) com essas provas passei a ver resultados na natação, não em velocidade mas em conforto, o ciclismo passou a ser mais tranquilo e a transição para a corrida menos sofrida.

Viajei para Florianópolis na quarta-feira anterior a prova, porque queria participar do treino de natação que a prova promove na quinta-feira no mesmo percurso da prova, minha bike enviei por transporte rodoviário, muito mais tranquilo que de avião e a bike chega montada e pronta para a prova.

Nos dias que antecedem a prova a praia de Jurerê Internacional e a Avenida Búzios é dominada por triatletas e o típico desfile, confesso que também fiz parte!

No domingo 29/05 às 3:00 da manhã o despertador tocou e a prova para a qual eu tinha treinado 5 meses com foco total estava prestes a começar. Procurei tomar um belo café da manhã e checar minhas sacolas com roupa e tralhas que ainda poderia deixar na transição, o dia amanheceu com chuva e prometia ser feio.

Na transição tirei a capa da bike, chequei os pneus, freios, abasteci o torpedo com um pouco de água, bati algumas fotos e parti para a largada para ter tempo de aquecer um pouco na água.

Meu plano era completar a prova em 12h dividida da seguinte forma: 1:24 de natação, 6h de ciclismo e 4h de corrida, mais as transições e alguma folga.

Minha largada foi às 7:15 em ponto, em uma manhã escura, fria e chuvosa apesar da água estar fria a roupa de borracha me deixou muito confortável e nadei em 1:28 os 3800m que viraram 4.100m

por conta dos erros de navegação, mas dentro do esperado para esta distância.LLR16IRMFB2945

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gastei 7 minutos na transição para o ciclismo e parti para os 180k de estrada debaixo de uma chuva pesada e fria, procurei me hidratar o tempo todo apesar da chuva e a cada hora não deixar de comer, estes foram os conselhos que mais recebi, não deixar de comer e hidratar. A parte do ciclismo é solitária mas o visual distrai e quando eu percebi já estava na Beira Mar, depois do túnel precisei parar no posto de Special Needs e pegar meu corta-vento estava com frio e receio que isso pudesse prejudicar o resto da prova, afinal estava no km44 e só passaria por lá novamente no km 140, aproveitei para ir ao banheiro e dar uma caprichada na pomada da virilha.

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No retorno do km90 encontrei com a minha namorada e vários amigos isso deu muito ânimo e ao mesmo tempo culpa por deixá-los debaixo de chuva assistindo a prova, mas amigo é amigo até debaixo d’água.

Na segunda parte do ciclismo a chuva parou, mas o vento aumentou deixando algumas partes do percurso bem duras, terminei o ciclismo em 6:05 como planejado, sem tombos, pneus furados ou desmonte catastrófico.

Sai para a corrida com as pernas excelentes, em nenhum treino havia saído tão bem, mesmo assim procurei manter o ritmo, logo veio mais chuva mas ali só dependia de mim. O percurso de corrida eram 3 voltas, a primeira de 21k e outras duas mais curtas 10k e 11k. Passei a primeira volta tranquilo bem constante e fui recebidocom festa dos amigos, da assessoria, minha treinadora de guarda-chuva na calçada dizendo que eu estava bem, estava forte e de cara boa, agora só faltava meia maratona e a confiança ia aumentando, queria terminar bem.EKG16IMF22826

Na segunda volta o GPS marcava 31k, o Sol já se punha e minha namorada corria de um lado para o outro com uma capa de chuva amarela do Mickey, impossível não encontra-la na multidão, disse que eu estava bem e que ela podia ir para o pórtico de chegada que dentro de 1 hora eu concluiria a prova, os amigos já estavam contando com minha chegada e até música tocaram quando passei, mas ainda faltava mais uma volta e nessa volta ainda precisei dar uma parada no banheiro químico e perder uns minutinhos mas que valeram ouro.CLN16IRON15936

Durante os treinos pensava qual seria a sensação de terminar um ironman, será que eu iria chorar? Será que eu ia terminar me arrastando? Será que eu ia realmente terminar? Bom quando eu entrei no curral de chegada, estava zen, feliz, não me emocionei, passei em transe, mal dei atenção para meus amigos na grade do curral, conclui a corrida em 4:12 e a prova toda em 11:58:02, como eu planejei, dentro das 12h e com prazer.MSJ16IMB35897

Respeitei a prova desde quando me inscrevi, me dediquei 100% aos treinos e posso dizer que se você tem experiência em esportes de endurance e sonha em fazer um ironman pode apostar no seu sonho, a pior parte serão os treinos e a dedicação. Em alguns momentos vai dar preguiça, algumas vezes ela ganha em outras você ganha, mas no final vale a pena.

Agora vou me dedicar as corridas de montanha e participar de algumas provas de Ironman 70.3, mas focando em qual será o próximo IRONMAN

 

 

 

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